06/02/2017 às 19h30min - Atualizada em 06/02/2017 às 19h30min

Vereadores ou sabonetes?

O marketing vem prestando inestimáveis contribuições para a política. Estamos migrando de uma linguagem rebuscada e burocrática para uma comunicação mais moderna, simbólica e emotiva _ assim como é a própria vida. Porém, essa evolução trouxe consigo diversas contradições, especialmente quando a política subjugou-se à lógica da propaganda _ como se fosse reles objeto à venda na prateleira do supermercado.

Os vereadores, adotando um viés consumista por cargos, dinheiro e espaços de poder, assumiram a estratégia do sabonete _ inclusive no sentido de que deslizam com facilidade. Isto é: viraram mero subproduto do marketing, marionetes adaptáveis a qualquer situação. Confundem-se. Igualam-se. Coisificam-se. E, faz muito tempo, deixaram de inspirar e de liderar. Formam uma grande geleia geral.

Isso não quer dizer que as ideologias acabaram. Ainda é possível identificar raciocínios com matriz ideológica. Porém, na medida em que trocam as ideias por mero jogo de curto prazo, eles caminham para um gradual esgotamento natural. E eis que, na perspectiva da coerência, só sobram os extremistas _ coerentes com suas próprias maluquices e, benza Deus, aceitos por ínfima parcela da população.

Eles, salvo raras iniciativas, abdicam de pensar. Abrem mão de suas ideias. Desistem de formar opinião. Pesquisas quantitativas e qualitativas em redes sociais, para medir o que o povo quer, tomam lugar dos cursos de preparação de líderes. Em vez de convencer, navegam no que convencido está. Não importa tanto o que dizer, mas dizer o que a média quer ouvir. A biruta tomou lugar da bússola: o vento dita o rumo. A moda é ser querido, leve, palatável, simpático e não comprar qualquer briga com corporações, grupos de interesse ou famosos do politicamente correto.

Nessa expectativa de agradar a todos, muitos acabam descuidando de seus potenciais públicos cativos. Covardemente, aceitam a própria pejoração.
Mudar esse cenário passa por assumir identidades. Ter lado, ter cara, ter posição, ter bandeira _ por mais que desagrade o eleitorado. A descrença, portanto, não é apenas de representação. É também, e acima de tudo, uma crise de inspiração e de liderança. O povo cansou de sabonetes na política. Está na hora de políticos de verdade.
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